Danilo Cardoso

Mas o que é isso: educação antirracista? Pra quê esse termo tão direto e forte com tom bélico? Não deveria a Educação, por si só, sê-la? O que se está a passar neste mundo “pós-colonial”? Qual é a necessidade de se adicionar esse adjetivo tão bem posicionado? Será uma urgência para esse século XXI recheado de ódio? Será uma alternativa para aliviar dores, sarar feridas e compensar um passado que se faz ainda presente para muitas e muitos? O que se ganha e o que se perde com ela?

Há quem acredite que somos todos iguais e humanos, mas não somos. Nem iguais porque somos todos diferentes e únicos, nem humanos tendo em vista as desigualdades desumanas reais e aos tratamentos diferenciados. Não seria preciso defender uma Educação Antirracista se a nossa educação – esse processo de socialização de humanos que dura do nascimento até a morte – não fosse racista. Uma Educação Antirracista se faz necessária para, exatamente, combater este racismo enraizado na Terra por meio, principalmente, da escravatura colonial. Imposto pelo poder e pluralizado com os séculos, o racismo serviu e serve como ingrediente básico para manter a sociedade capitalista/ocidental/global – há muito tempo em colapso. Uma Educação Antirracista pretende chegar à raiz ao estimular questionamentos e reflexões acerca da complexidade que integra nosso cotidiano. Ela pretende resgatar a coletividade, a memória e a humanidade perdidas e, desse modo, ressignificar sentidos e valores.

A força de seu termo é proporcional à resistência ininterrupta de grupos e povos dominados, explorados e inferiorizados pelo eurocentrismo moderno. É uma alternativa de reparar danos estruturais e dívidas históricas; de garantir direitos e evitar repetições. É uma referência para mensurar a tolerância que não se deve ter com quem reproduz “normalidades” e violências nos dias atuais. É uma forma de exercer a cidadania tão exaltada pelas sociedades democráticas e livres – com honestidade.

Não existe Educação neutra: pode-se educar para tudo. Pode-se educar para o antirracismo como pode-se educar para matar por racismo. Não vale a ingenuidade e o romantismo da crença de que defendemos a (mesma) educação (para todes). A escola, por sua vez, deve e pode ser antirracista sem fazer uso do termo – caso não estimule a reprodução da realidade e deixe de comungar com as lógicas capitalistas e modernas (ou melhor: coloniais) de vida. Os professores também devem e podem ser antirracistas, mas é preciso fundamentar, definitivamente, que uma educação antirracista está para muito além da escola e dos professores. Ela precisa se fazer presente desde sempre: nas relações familiares. Ela precisa estar em todos os espaços sociais. Ela precisa ser um projeto de Estado. O antirracismo alia-se à Educação para (apenas) demarcar os limites da liberdade. “Liberdade” esta que, desde a Revolução Francesa até o uso das redes sociais, vem sendo cada vez mais arbitrária, cruel, excludente, mercantilizada e opressora. Educação Antirracista é outra coisa: conscientização e libertação.

Sempre houve formas de educar contra o racismo, mas o termo tem sido mais fortalecido e utilizado nos últimos anos – outros termos existentes num passado recente e em diversas partes do planeta diferem mas defendem o mesmo. Ela nos faz olhar para trás para permitir a construção do que queremos lá à frente: aproximar, conhecer, mobilizar e transformar. Trata-se de ultrapassar o respeito ao próximo e integrá-lo a sua vida. É preferir a convivência à conveniência. Se não há interesse e tempo para pensar e repensar sobre isto, o que há em você?

Inevitavelmente, uma educação antirracista traz o passado à mesa. Um passado de abuso, covardia, frustração e orgulho. Um passado de racismo científico, estatal e legal. Um passado ainda presente na vida de muitas e muitos. Um passado-presente que castra (ainda) possibilidades de futuro. Promover uma educação antirracista é, acima de tudo, identificar as heranças coloniais e os privilégios sociais – assim como ser antirracista é muito mais do que reconhecer tais heranças e privilégios. É criar alternativas, estratégias e políticas públicas de reparação. É escutar e agir muito mais do que falar.

Não se deve falar o que se quer; não se deve fazer o que se quer. Não devemos permitir que a impunidade extermine a noção de justiça. Não devemos permitir que a “civilização” estimule (ainda mais) a barbárie. Assiste-se das bolhas umbilicais um desfile da extrema-direita em diversos países, seus discursos criminosos e suas práticas absurdas. A mentira é a arma usada contra a própria sociedade. Será mesmo extremo ser antirracista? Não será um exagero polemizar uma urgência?

Portugal, em menos de meio século, conseguiu libertar-se do colonialismo e do salazarismo? Depois do 25 de Abril tudo mudou? Quanta hipocrisia é sustentada todos os dias? País seguro ou tudo “como deve ser”? Multicultural para quem? Tolerar “o outro”? A terra é de quem matou e de quem morreu por ela e/ou de quem vive sobre ela? É muito pouco tempo para as avós e os avôs das gerações mais novas esquecerem tudo o que se passou. Essas memórias traduzem-se em práticas. Se as memórias são coloniais, as práticas são e serão coloniais. Para mudar isso é preciso criar novas memórias e uma educação antirracista tem como princípio servir de espaço de encontro e momento de diálogo para recriações – autorais, individuais e coletivas. O silêncio em nada nos ajuda(rá).

Logo, todes ganhamos e nada perdemos. Uma educação antirracista, presente da família ao Estado, é o início de uma transformação estrutural. Muito mais do que boa vontade, uma política sem partido. Na escola e na universidade, na igreja e no trabalho, nas práticas e produções culturais, se novas afirmações forem difundidas e fundamentadas, encontros forem realizados, diálogos forem cultivados, ações forem planejadas e desenvolvidas e crimes forem condenados, algo de novo acontece. Não fazer nada já sabemos que faz o nada vingar.

Uma campanha nacional via comunicação social para renovar o pacto antirracista na sociedade portuguesa é um excelente começo para novos começos – sem desmerecer e apagar todas as iniciativas antirracistas até aqui; pelo contrário, percebe-se uma continuidade. Fazer uso de sua influência e função para alcançar variados públicos de uma só vez é desejar sensibilizar cidadãos a fim de solucionar uma problemática que afeta – consciente e/ou inconscientemente e direta e/ou indiretamente – todes, diariamente. Priorizar a produção do seu conteúdo às associações e aos coletivos antirracistas é inverter o lugar de fala, visibilizar suas vozes e permitir novas leituras a partir de outras Histórias. A comunicação social deve mais auxiliar do que confundir.

Quem tem medo de ter um chefe negro no trabalho? Quem tem medo de ter uma professora negra na universidade? Quantas negras e quantos negros estão a trabalhar no topo de escolas e hospitais? Quantas negras e negros estão nos serviços de limpeza, nas obras e nas prisões? Quem tem medo daquele cigano que não cumprimenta nem sabe o nome? Quem tem medo daquela cigana sem conhecer sua cultura? Quem tem medo de ver ciganos e ciganas nos manuais escolares? Quem tem medo da América Latina e desses Brasis que não param de chegar por cá? Quem tem medo da presença asiática nesse estreito país ibérico? Quem tem medo que os árabes reconquistem o seu antigo universo?

Se Portugal se postula à frente, precisa dar uns passos para trás. Se deseja uma conexão com a sua própria realidade, precisa olhar-se no espelho. Se está comprometido com o que há de mais humano na educação formal, não-formal e informal, precisa ser antirracista. E uma educação antirracista não tem o medo como alicerce – pelo contrário, combate-se o medo e os pré-conceitos. O perigo está, evidentemente, na perpetuação do racismo interpessoal, institucional e estrutural do agora. O perigo está solto pelas ruas, livre e desinibido. Não há justiça onde há racismo. E sem justiça não há paz.

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Danilo Cardoso é arte-educador e professor de História. Doutorando em Antropologia [ISCTE/NOVA] e mestre em Educação [USP]. Leciona na educação formal e não-formal da rede particular e pública desde 2003 e tem experiência como alfabetizador freiriano e com projetos antirracistas. Coordena o Grupo EducAR [sítio | facebook | @grp.educar] em Portugal.