Bárbara Góis

Muito nos temos debruçado sobre a possibilidade de caracterização de alguns fenómenos não tão novos e cada vez mais presentes nas nossas realidades; fenómenos esses que poderíamos, sem muito debate, assumir que não chegaram sequer a aquecer a terra onde foram enterrados. Mas os fascismos e neofascismos são muito mais do que a abstração por detrás da analogia do cadáver fresco transformado em zombie. Factualmente, os fascismos e os neofascismos têm características. Não é um insulto vão, não é algo que “a esquerda atira a tudo que não gosta”.

Ora, para nos ajudar a compreender o motivo pelo qual não é descabido quando apontamos o dedo ao Chega e dizemos que o partido, bem como seus representantes são neofascistas, eu quero que digam “ah, pois é” por casa uma das características enunciadas que consigam reconhecer no mesmo : ultranacionalismo, perseguição aos opositores, figura de um “líder” ou “herói”, apologia a um estado totalitário, culto à violência , ultraconservadorismo e , por fim , discurso de ódio/intolerância.

O parlamento Português conta com a presença de um partido neofascista mas nem tudo está perdido. Não está perdido porque, e principalmente, Portugal ainda é um país onde o imaginário e datas comemorativas remetem a um episódio específico conotado com ampliação de direitos democráticos e rompimento com uma ditadura de mais de 40 anos. Episódio esse possível por obra de movimentos de libertação de territórios africanos mantidos como colónias, por sede de liberdade e igualdade. Se podemos dizer que eles avançaram, nós, por cá, não temos um saldo negativo. O jogo vai em 3×1 no que toca ao número de deputadas negras eleitas por vitória de movimentos de base antirracistas versus a eleição de um deputado que precisou falsificar assinaturas e que contou com um fechar de olhos nada inocente por parte do TC. Nós ganhamos cada um dos votos com campanhas por melhoria de vida de pessoas negras, ciganas, racializadas em geral e emigrantes.

Neste meu pequeno contributo eu quero, sobretudo, deixar claro que, ainda que seja real e que não deva ser menosprezado o perigo do crescimento e reorganização das forças conservadoras, nós temos força. Temos força nas ruas, como mostrámos no dia 6 e temos força no parlamento nas nossas deputadas negras. Temos força nos movimentos feministas. Temos força nos movimentos antifascistas. Temos forças nos sindicatos. Temos força no movimento LGBTIA+. E teremos mais força quanto mais pontes conseguirmos construir entre nós porque muros derrubados são pontes.

Walls turned sideways are bridges – Angela Davis

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Bárbara Góis é mulher Bahiana, trabalhadora de call center, mãe da Iara. Militante negra antirracista, feminista, lésbica e anti-fascista do colectivo Semear o Futuro.