As 3 Ecologias de Guattari e o Escândalo da Chegada de Mulheres Negras ao Espaço Público1

Hans Eickhoff

Desde os meados do século XIX, o conceito da ecologia propagou-se a partir de uma subdisciplina da Biologia, dedicada ao estudo da relação entre os seres vivos e o seu meio ambiente, a um conceito mais abrangente, incluindo todas as questões ambientais, desde os processos da vida, até aos fluxos de material e energia, aos ecossistemas e à biodiversidade. Em relação à vertente ambiental, qualquer noção que pudesse implicar a submissão da Natureza pelo Homem não estará apenas ultrapassada: o colapso ecológico em curso acaba por ser uma demonstração irrefutável dos efeitos nefastos de num sistema capitalista global assente no crescimento económico infinito num planeta finito. O aquecimento global e a perda da biodiversidade deixaram de ser uma ameaça de um futuro longínquo para serem responsáveis por catástrofes “naturais” que atingem em primeiro lugar as populações do Sul global e, em particular, os povos indígenas, provocando grandes fluxos migratórios, cujas consequências também se estão a avizinhar nas tragédias diárias no Mediterrâneo e nos muros e barreiras que uma “fortaleza Europa” está a tentar erguer, no vão esforço de conter uma realidade incontornável.

Ao apresentar o seu modelo das 3 Ecologias há 30 anos, o psicoterapeuta, filósofo e ativista francês Félix Guattari rompe com esta limitação ambiental do conceito da ecologia e amplia o conceito em direção a uma ecosofia que incorpora a ecologia mental e social, a par da ambiental. Aqui, a ecologia social refere-se à reconstrução de relações humanas a todos os níveis, requerendo um investimento afetivo e pragmático em grupos sociais de diferentes tamanhos e características. No entanto, dentro das sociedades capitalistas, é possível identificar determinados grupos sociológicos a divergir progressivamente: as classes assalariadas, as massas precárias, e as elites executivas. Estes grupos tendem a exprimir identificações padronizadas, tendencialmente conformistas, tornando-se sujeitos à imitação de figuras paternalistas. Para contrariar o risco implícito da dominação da ecologia social por iniciativas nacionalistas e reacionárias, hostis à inovação e propícios à opressão de mulheres, crianças e minorias, tornar-se-á imperioso que as forças progressistas assumam uma posição política coerente e reclamem o espaço público por uma multitude de grupos e indivíduos que representam a diversidade invisibilizada.

Dentro do construto ecosófico, a ecologia mental refere-se à capacidade de cultivar o dissenso e a existência singular, em vez de promover consensos infantilizantes e estupidificantes. Recusa o uniformismo igualitário e aceita a coexistência do singular, do excecional e do raro. Consequentemente, a ecologia mental obedece à lógica do “terceiro incluído”, admitindo a presença de aparentes opostos, como por exemplo a inclusão do feio por dentro do belo, do feminino dentro do masculino ou vice-versa, numa lógica da aceitação da ambivalência onde quer que surja.

Apenas dentro desta constelação triangular da ecosofia se poderão então desenvolver e compreender os necessários processos de transformação existencial, caraterizados pela subjetivação e pela singularização, permitindo a oposição do indivíduo ao domínio do capitalismo global e dos meios de comunicação social que constituem parte integrante do mesmo. Ao mesmo tempo, e à medida que estes se movem em direção ao controlo sobre a subjetividade e sobre o indivíduo, se intensificam atitudes segregacionistas perante imigrantes, mulheres, e todos que se distinguem pela sua diversidade. Por isso, a resistência de ativistas, ecologistas, feministas e antirracistas requer modos de reprodução de subjetividade que se possam apoiar no conhecimento, na cultura, na sensibilidade e na sociabilidade.

Em outubro de 2019, a chegada de uma mulher negra e gaga ao parlamento português originou um enorme impacto e desconforto visível por todo o lado que, em parte, pode ser explicado pela sua excecionalidade e o seu non-conformismo em oposição à tendencial uniformidade do espaço público massificado. No entanto, esta inquietação não pode ser dissociada do racismo estrutural de origem colonialista que persiste na sociedade portuguesa.

“Aquilo a que chamamos colonialismo tem implicações mais profundas do que a violência sobre os corpos. É também uma violência sobre a memória, com gerações e gerações condenadas ao esquecimento, porque a História que sobrevive é sempre a história do dominador e não a história do dominado. Erguer um novo país implica quebrar esse monopólio da memória e reconstruir tudo: criar uma História própria a partir de frágeis fragmentos; procurar uma identidade autónoma por debaixo dos escombros de um regime opressivo. (…) Ao fim de 45 anos de uma integração pouco integrada, há uma nova geração que começa finalmente a fazer ouvir a sua voz. Essa nova geração mais qualificada pode não ser ainda muito numerosa, mas tem vindo a criar um movimento associativo forte, apoiado pelas faculdades de ciências sociais. Esse movimento está aos poucos a produzir uma massa crítica suficientemente interventiva para começar a perturbar o mito luso-tropicalista e a herança da suposta “exceção portuguesa”, que nunca o foi nas antigas colónias, e que também não o foi, nem o é, em Portugal.”2

Este “mito luso-tropicalista” com origem nas teses do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre foi adotado com sucesso pelo Estado Novo na tentativa demagógica e propagandística de convencer os portugueses da suposta benignidade do colonialismo português, já depois do eclodir da guerra colonial em 1961. No seu livro “A Elite do Atraso”3, Jessé Souza analisa a forma como Gilberto Freyre, a par de Sérgio Buarque de Holanda, consegue impor uma narrativa benévola do racismo luso-brasileiro revestido de um “culturalismo” que ainda hoje deixa as suas marcas numa sociedade refém da hierarquização social entre brancos e a restante população, em muito semelhante àquilo que acontece em Portugal.

“Todas as hierarquias existem para servir de equivalente funcional do racismo fenotípico, realizando o mesmo trabalho de legitimar pré-reflexivamente a suposta superioridade inata de uns e a suposta inferioridade inata de outros. Ao substituir a raça pelo estoque cultural, dá a impressão de cientificidade, reproduzindo os piores preconceitos. Os seres superiores seriam mais democráticos e mais honestos do que os inferiores, como os latino-americanos ou afrodescendentes, por exemplo. Tornam-se invisíveis os processos históricos de aprendizado coletivo e se criam distinções tão naturalizadas e imutáveis quanto a cor da pele ou supostos atributos raciais. O culturalismo cumpre assim exatamente as mesmas funções do racismo da cor da pele. Presta-se a garantir uma sensação de superioridade e de distinção para os povos e países que estão em situação de domínio e, desse modo, legitimar e tornar merecida a própria dominação. O que antes era racismo, sem pôr nem tirar, passa a ser, por força dos meios de aprendizado (como escolas e universidades, e meios de comunicação social, como jornais, televisão e cinema) crença compartilhada socialmente. Assim, as pessoas passam a pensar o mundo de tal modo que favorece a reprodução de todos os privilégios que estão a ganhar.”

Sem dúvida, a segunda vertente do desconforto e do impacto da chegada desta mulher negra deve-se o rompimento que esta provoca em relação aos privilégios dados como adquiridos pelas classes dominantes. Uma mulher negra que se atreve a afirmar que nasceu para estar aqui e que não põe apenas em causa o domínio dos homens brancos (que não precisam de dizer alto e de bom som que nasceram para estar onde estão porque isso está implícito na sua condição de homem branco), mas também desafia as suas irmãs brancas e as suas conquistas feministas pouco consolidadas e frequentemente assentes na exploração do trabalho doméstico da mulher negra? É mesmo muita ousadia. Que haja mais!

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Hans Eickhoff é médico e ativista. Nasceu em Zeven, uma pequena cidade rural na Baixa Saxónia, entre Hamburgo e Bremen. Vive em Portugal desde 1990. Pai de 3 filhos entre 3 e 24 anos. Doutorado em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Membro da Rede para o Decrescimento, da campanha ATERRA e da rede internacional Stay Grounded. Co-fundador do ColetivoXis. Iniciou o seu ativismo político nos movimentos antinucleares e pacifistas e no partido Os Verdes na Alemanha. Dá por adquirido que o atual sistema social e económico de crescimento infinito, baseado no saque dos recursos do planeta e na exploração cruel da maioria dos seus habitantes, a alimentar o consumo desenfreado de alguns, é ecológica e moralmente insustentável.


1 Adaptação da intervenção durante a mesa redonda que se seguiu ao lançamento do livro “Mais Qu’Est-Ce Que C’Est Donc Un Noir” (Mas afinal o que é um negro”) da psicanalista Jeanne Wiltord que contou com a participação da autora, da psicanalista Maria Belo e da deputada à Assembleia da República, Joacine Katar Moreira que teve lugar em 15 de fevereiro de 2020 ( “A Emergência do Feminino, da Cor da Pele e da Voz no Espaço Público e na Representação Política” – Conferência organizada pelo NELB – Núcleo de Estudo Luso-Brasileiro da FDUL e pelo Centro Português de Psicanálise)

2 Discurso de João Miguel Tavares de 12 de junho de 2019 (proferido em Cabo Verde por ocasião do 10 de Junho)

3 Souza, Jessé (2017) A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato, Casa da Palavra / Leya, Rio de Janeiro